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Alegria!
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* Por Irmã Ana Maria H. da
Silva
“Estejam
sempre alegres, rezem sem cessar.
Dêem
graças em todas as circunstâncias,
porque
esta é a vontade de Deus a respeito de vocês em Jesus Cristo” (1
Tess 5,16-18).
Esta
exortação do apóstolo Paulo aos irmãos de Tessalônica, chega até
nós como um conselho do modo de proceder de todo o cristão. São
Paulo nos convida a permanecer na alegria e esta não pode ser
comparada ou confundida com a alegria efêmera e fútil a qual
observamos em nossa sociedade. A alegria provocada pelo consumo
exagerado de bebidas e drogas, embalada pela aquisição de bens
materiais, que podemos denominar de uma “pseudo-alegria”,
ou seja, uma falsa alegria, um momento passageiro de prazer onde
muitas vezes custa e fere a alegria de muitas pessoas.
Para
Francisco de Assis a mensagem de Paulo era tão profunda que ele
acolheu e compreendeu intensamente e a transmitiu aos seus
irmãos: “E guardem-se os irmãos de não se mostrarem em seu
exterior como tristes e sombrios hipócritas. Mas antes
comportem-se como gente que se alegra no Senhor, satisfeitos e
amáveis como convém” (RnB 7,15). Por diversas vezes ele os
orientou a não perderem a alegria que nos é presenteada pelo
próprio Cristo. |
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Dava aos
seus co-irmãos a garantia de que o remédio
mais seguro contra as mil armadilhas ou astúcias do inimigo era
a alegria espiritual. Costumava dizer: “O diabo exulta, acima
de tudo, quando pode surrupiar ao servo de Deus a alegria do
espírito. Carrega um pó para jogar nos menores meandros da
consciência, para sujar a candura da mente e a pureza da vida.
Mas, quando os corações estão cheios de alegria espiritual, a
serpente derrama a toa o seu veneno mortal” (2 Cel 125,2-4).
São Francisco se esforçou muito para viver sempre no “júbilo
do coração, conservando a unção do espírito e o óleo da
alegria” (2 Cel 125,7). Em nossa
sociedade é muito comum o pensamento de que somente nos momentos
de prazer, euforia, nos momentos positivos e de bem estar e que a
alegria se faz presente. Francisco de Assis fez a profunda
experiência da gratuidade do amor de Deus, de sua benevolência e
foi capaz de perceber a face escondida de nosso Deus em todas as
suas criaturas e isto o fazia rejubilar de alegria. Francisco
contemplava em todas as criaturas a bondade, a sabedoria e o
poder de Deus (2 Cel 165). Ele enxergava nas criaturas os
vestígios de Deus, sua marca, sua beleza, sua luz e sua força.
Foi de sua íntima união com Deus na oração/contemplação, na
escuta da Palavra e na vivência fraterna que ele mergulhou no
sentido íntimo da alegria cristã de pertencermos ao Senhor:
“Feliz a nação cujo Deus é o Senhor, o povo que ele escolheu por
sua herança” (Sl 33,12). |
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A alegria
cristã e franciscana não se limita aos momentos de prazer, ela
deve ser constante e intensa. “Alegrai-vos no Senhor” (Fl
3,1). A exortação de São Paulo “Abençoem os que vos
perseguem; abençoem e não amaldiçoem. Alegrem-se com os que se
alegram e chorem com os que choram. Vivam em harmonia uns
com os outros” (Rm 12,14-16), comporta um compromisso com o
próximo e, portanto se faz também presente nos momentos de dor e
de tribulação. Daí percebemos a grande diferença entre a alegria
anunciada pela sociedade, pelo mundo (pseudo-alegria) da
verdadeira alegria, daqueles qu colocam a sua esperança e
confiança em Deus. É somente nele apoiados que temos forças para
enfrentar as dificuldades e serenidade para perceber a presença
amorosa e paterna de Deus a
nos conduzir e fortalecer mesmo enfrentando as dificuldades da
vida.
Ser anunciador de alegria num mundo governado por sistemas que
pregam e lucram com o prazer a qualquer preço, marcado por
competições, individualismos e por tantas diferenças sociais,
somos mais que desafiados a encontrar o rosto pobre, humilde e
crucificado de Cristo presente em cada irmão (ã), principalmente
nos mais esquecidos de nossa sociedade.
A cruz nos é apresentada como contrária á alegria e não como um
caminho, um meio como foi parra o próprio Jesus Cristo. Quando
se fala de cruz, muitas pessoas a reduzem a um mero objeto. Mas
quando falamos da cruz, incluímos necessariamente o Crucificado.
Por isso, o seguimento de Jesus e o compromisso cristão se
identificam com o “tomar a cruz” (Mt 10,38). Esta
afirmação de Jesus não é resignada, nem passiva, mas consciente
e dinâmica. Tomar a cruz significa caminhar para transformá-la.
Não basta, porém, somente carregar a cruz. A novidade cristã é
carregá-la com Cristo. “Carregar a cruz”, contudo, não
representa uma aceitação estóica, mas atitude daquele que leva o
compromisso até as últimas conseqüências. “Tendo amado os
seus, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Essa cruz carregada por
amor transforma o sofrimento. É a opção positiva de homens e
mulheres de fé, que acreditam e podem realizar, quer dizer: o
que chamamos cruz é a conseqüência de uma opção de vida, pela
vida do outro, muitas vezes explorado, marginalizado, perseguido
e morto. |
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Todo o
cristão é convidado a fazer a descoberta da “verdadeira
alegria”, que não pode ser confundida como uma mera satisfação
pessoal, de gosto particular. Mas, a verdadeira alegria, por
mais estanho que pareça, tem a forma de cruz e a cruz que nasce
do amor que se sacrifica para o bem e a felicidade dos outros. “Ninguém
tem maior amor do que aquele que d á a vida pelos seus amigos”
(Jo 15,13).
São Francisco fez uma forte experiência de encontrar alegria até
mesmo no sofrimento causado por outras pessoas, ele aprendeu do
apóstolo Paulo: “Quanto a mim, que eu me glorie (alegre), a
não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” (Cf. Gal
6,14). Compreendemos melhor isso quando lendo a perfeita
alegria, descrita em Fioretti 8, num diálogo amigo e
fraterno Francisco explica ao seu confrade Frei Leão o que é a
perfeita alegria. Percebemos a grande espiritualidade brotada da
experiência de Cristo que Francisco fez. Essa lição, esse legado
ele deixou para todos nós.
“Certa vez,
indo Francisco com Frei Leão de Perúgia a Santa Maria dos Anjos,
em dia frio e chuvoso de inverno, Francisco perguntou ao seu
companheiro e irmão em que consistia para ele, sentir a perfeita
alegria. Seria então dar exemplo de santidade e de boa
edificação, curar os cegos, endireitar o encurvado, expulsar os
demônios, restituir aos surdos o ouvido, aos coxos o andar e aos
mudos a fala, ressuscitar os mortos, saber falar todas as
línguas e ter o conhecimento de todas as ciências, e de todas as
Escrituras? Nisto, com certeza, não consistia a verdadeira alegria.
Porém, continuou Francisco: "Mas se ao chegarmos à Santa Maria
cheios de frio e de fome e muitos cansados e se batêssemos à
porta e fôssemos mandados embora, insultados e nós não nos
perturbássemos com a injúria recebida e nos mantivéssemos
alegres, pacientes e cheios de amor, nisso sim consiste a
verdadeira alegria. E se continuássemos batendo e o porteiro nos
maltratasse e nos batesse, se suportarmos tantos males, tantas
injúrias e açoites, pensando que devemos carregar as
penas do Cristo bendito, aí está a perfeita alegria”. |
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A perfeita alegria não é masoquismo, mas consiste na serenidade
em todos os momentos da vida, inclusive nos sofrimentos e saber
tirar dos momentos de dor uma lição de vida para o crescimento
pessoal e para a vida de fé. Mas, para se chegar a perfeita
alegria é preciso lutar contra o egoísmo, o orgulho. Quem vive
somente para realizar seus projetos e sonhos pessoais sem se
importar com os dos outros, com a vida do próximo, do irmão, não
poderá experimentar a verdadeira alegria, que é servir e amar.
“Deus ama quem dá com alegria” (2 Cor 9,7). E mais ainda:
“Quem quiser ser o primeiro seja o último e seja aquele que
serve a todos” (Mc 9,35). A perfeita alegria é um dom de
Deus, proveniente da nossa união com Ele. É esta a única forma
de chegarmos á perfeição da caridade e a perfeita alegria.
O Papa João Paulo II afirmava: “O homem de hoje necessita da
fé, da esperança e da caridade de Francisco, necessita da
alegria que brota da pobreza de espírito, isto é de uma
liberdade interior” (11/02/03). Então caríssimos irmãos e
irmãs, “Alegrai-vos sempre no Senhor” (Fl 3,1). Que a alegria
que é uma virtude e marca distintiva da vida cristã e
franciscana seja constante em nossas vidas. Acolhamos o conselho
sábio de São Paulo “Fiquem sempre alegres no Senhor! Repito:
fiquem alegres! Que a bondade de vocês seja notada por todos”
(Fl 4,4-5).
Toda Paz e Todo Bem!

*Irmã Ana Maria H. da Silva é
franciscana alcantarina,
Teóloga e Ecônoma Provincial
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